A TEORIA POR TRÁS DOS SUPER-HERÓIS: POR QUE UTILIZÁ-LOS EM AULA NÃO É SÓ UM TRUQUE

Durante todos esses anos de trabalho utilizando personagens da cultura midiática para falar de física, percebo que alguns recebem a ideia com ressalva. Ou porque possuem algum tipo de preconceito com os objetos utilizados para se chegar ao objetivo, ou porque acham que isso é apenas uma forma de deixar a aula mais divertida, sem uma finalidade pedagógica. E a resposta é não, ou melhor, é muito mais do que isso. Por trás de cada personagem que entra na minha aula existe uma teoria da aprendizagem bem estabelecida, que estuda há décadas por que certos conteúdos ficam memorizados na mente dos estudantes e outros somem depois de cumprirem seus objetivos: o dia da prova. Essa teoria tem nome, tem autor, e vale a pena você conhecer.

Quem foi David Ausubel

David Paul Ausubel nasceu em Nova York em 1918, filho de imigrantes judeus. Formou-se em medicina e psiquiatria, mas dedicou boa parte da carreira à psicologia educacional, tornando-se professor emérito da Universidade de Columbia. Morreu em 2008, aos noventa anos, deixando como principal legado a teoria da aprendizagem significativa,  apresentada de forma mais completa no livro Educational Psychology: A Cognitive View, de 1968.


No prefácio desse livro está a frase que ficou bem conhecida e que resume toda a teoria: "se eu tivesse que reduzir toda a psicologia educacional a um único princípio, eu diria o seguinte: o fator mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o aluno já sabe. Verifique isso e ensine-o de acordo." Assim, em uma frase só, Ausubel deixou claro que ensinar não é depositar conteúdo em uma cabeça vazia, mas sim conectar o novo ao que já existe ali dentro.

O que é aprendizagem significativa

Para Ausubel, a aprendizagem acontece de forma mais eficaz quando o novo conteúdo se relaciona com conceitos que o aluno já carrega na própria estrutura cognitiva. Isso é bem diferente da aprendizagem mecânica ocorrida nas aulas tradicionais, aquela que o aluno decora sem realizar correlações, na qual ocorre o processo de memorização. O popular decorou para a prova, e esqueceu na semana seguinte. Já a aprendizagem significativa, cria-se uma rede: o conteúdo novo se ancora em algo que já faz sentido para o aluno, e por isso permanece. Desta forma não basta o professor explicar bem. É preciso que exista na estrutura cognitiva do estudante um gancho onde aquele conteúdo possa se prender.

Organizadores prévios e subsunçores

Ausubel chamou esse gancho de subsunçor, a estrutura de conhecimento que o estudante já tem e que permite dar sentido ao conteúdo novo. É aquilo que ele já sabe, mesmo que de forma intuitiva, e que serve de base para ancorar o que ainda vai aprender.


Já o organizador prévio é aquilo que o professor apresenta intencionalmente, antes do conteúdo, com o objetivo de preparar essa ancoragem. Desta forma, o subsunçor é o que o aluno já traz de casa; o organizador prévio é o que o professor faz para ativar ou construir isso em sala. Os personagens midiáticos, dos quadrinhos e cinema,  conseguem cumprir as duas funções ao mesmo tempo, dependendo de como você olha para eles.

Os super-heróis fazendo o papel duplo

Suponha uma aula sobre magnetismo em que eu digo: "lembra como o Magneto movimentava aquela ponte de metal? Isso exige um campo magnético intenso. Vamos aprender o que são esses campos e como calcular o necessário para isso." Para o aluno que já conhece o personagem, viu a cena em filmes ou animações, ou alguma outra proeza parecida dele, o Magneto já existe como subsunçor, é conhecimento prévio, pronto, esperando uma conexão. Ao mesmo tempo, o fato de eu trazer esse personagem com um propósito, antes de apresentar o conceito de campo magnético, faz dele também um organizador prévio. As duas funções coexistem na mesma cena: o subsunçor é o que o estudante já trouxe; o organizador prévio é o que eu fiz com isso.


Permita-me outro exemplo. Em uma aula sobre calor eu digo aos estudantes: "imagine o Tocha-Humana. Como o corpo dele não derrete com tanto calor? Vamos entender como o calor se propaga e o que a física explica sobre isso." Aqui, mesmo que o aluno nunca tenha ouvido falar do Tocha-Humana, a pergunta por si só já ativa uma noção intuitiva que qualquer estudante carrega, a ideia de que existe algo que resiste ao calor e algo que derrete. Nesse caso o personagem funciona só como organizador prévio: o gancho não vem do conhecimento prévio sobre aquele herói específico, vem da pergunta que construí com um propósito para abrir espaço ao conteúdo.

Por que isso importa

Entender essa teoria mudou a forma como escolho cada personagem e cada cena que uso em sala. Não é mais "vou usar o Flash porque é o personagem preferido dos meus alunos", é "esse personagem já é subsunçor para essa turma, ou preciso construir ele como organizador prévio antes de entrar no conteúdo". Isso muda a estratégia, e a estratégia muda o resultado em sala. No final, é isso que sustenta o projeto todo: não é só a utilização de personagens midiáticos colados em física. É uma teoria de aprendizagem concreta, com o interesse de conectar os conteúdos na estrutura cognitiva do estudante, aplicada a um material pelo qual ele já demonstra grande interesse, antes mesmo de entrar na sala.


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