COMO SERIA VIVER SOB O SOL VERMELHO DE KRYPTON
Uma análise científica sobre astronomia, espectro eletromagnético e a biologia do Superman.
Imagine acordar todas as manhãs sob uma luz avermelhada e suave, como se o dia inteiro estivesse permanentemente tingido pelos tons de um pôr do sol. Não há o azul intenso do céu terrestre nem o branco-amarelado do nosso Sol. Krypton orbitava uma estrela vermelha, enquanto a Terra é iluminada por um Sol amarelo. E essa simples diferença de cor muda absolutamente tudo: o clima, as cores, a biologia e, principalmente, o que significa ser kryptoniano.
Neste texto vou analisar como seria viver sob esse sol vermelho. Falarei tanto do ambiente físico quanto do que ele faz (ou deixa de fazer) com o corpo dos habitantes do planeta. E, claro, vamos conectar tudo isso com a razão pela qual Clark Kent se tornou tão extraordinário quando chegou à Terra.
O sol vermelho, segundo os quadrinhos
Nos quadrinhos, o sol de Krypton se chama Rao, e na maior parte das versões clássicas ele é retratado como uma estrela gigante vermelha, uma estrela imensamente maior do que o nosso Sol, em fase avançada da evolução, e que já esgotou o hidrogênio em seu núcleo e passou a queimar hélio e outros elementos. Em algumas outras versões, Rao é uma anã vermelha. Independentemente do tamanho, os kryptonianos não manifestavam nenhum tipo de superpoderes diante dela. Eram fisicamente resistentes, adaptados a uma gravidade muito mais intensa que a da Terra, mas nada além disso. Sem nenhum voo, nenhuma força sobre-humana, nenhuma visão de raios-X. Apenas ao serem expostos a um sol amarelo, como o nosso, é que essas capacidades são manifestadas e, segundo a explicação consolidada pelo roteirista John Byrne nos anos 80, isso acontece porque as células kryptonianas funcionam como uma espécie de bateria solar, absorvendo energia da radiação de nosso Sol e armazenando aquilo que os corpos deles não usam de imediato.
Assim, a pergunta que fica é: por que um sol vermelho carrega tão pouca energia utilizável, a ponto de deixar um kryptoniano praticamente tão comum quanto os terráqueos?
Por que a cor de uma estrela muda tudo
Embora chamemos o Sol da Terra de "amarelo", ele é, na realidade, praticamente branco. Sua aparência amarelada ocorre porque a atmosfera terrestre espalha parte da luz azul. Vista do espaço, fora de nossa atmosfera, ele se revela uma magnífica estrela irradiando a luz branca.
Toda estrela emite luz porque está extremamente quente, e a temperatura de sua superfície determina a cor que ela se apresenta. Esse comportamento é descrito pela Lei do Deslocamento de Wien que nos diz que quanto mais quente for a superfície de uma estrela, mais o pico de emissão de luz se desloca para o azul, quanto mais fria, mais esse pico se desloca para o vermelho e o infravermelho. Em outras palavras, estrelas muito quentes tendem a emitir mais luz azul ou branca, enquanto estrelas mais frias emitem principalmente luz avermelhada.
O nosso Sol tem uma temperatura de superfície em torno de 5.500 °C, o que empurra o pico de sua radiação para a faixa amarelo-esverdeada do espectro visível, por isso que enxergamos sua luz branca-amarelada, rica em radiação ultravioleta. Já uma estrela vermelha como Rao tem a temperatura de superfície bem mais baixa, entre 2.500 °C e 3.800 °C. Isso significa que seu pico de emissão cai para o vermelho e no infravermelho, com muito pouca energia sobrando nas faixas mais azuis e ultravioletas do espectro. Deste modo, o céu de um planeta que orbita uma estrela vermelha teria uma iluminação completamente diferente daquela à qual estamos acostumados. Do ponto de vista de um habitante, uma estrela assim iluminaria o planeta com uma luz mais fraca e mais avermelhada. Isso já mudaria a cor do céu e a forma como enxergamos o ambiente. O mundo pareceria mais crepuscular, algo que combina muito com a atmosfera de Krypton em várias versões dos quadrinhos.
A luz visível faz parte do chamado espectro eletromagnético, um conjunto de todas as formas de radiação eletromagnética. Cada cor corresponde a um comprimento de onda diferente. A luz azul possui comprimentos de onda menores e transporta mais energia. Já a luz vermelha apresenta comprimentos de onda maiores e menor energia por fóton. Como uma estrela vermelha emite muito mais luz vermelha e infravermelha do que azul, entrega ao planeta que orbita muito menos radiação de alta energia do que um sol amarelo ou branco entregaria.
Viver sob essa luz
Viver em um mundo banhado por uma luz mais fraca em energia teria uma série de consequências.
A biologia teria que se adaptar. Aqui na Terra, as plantas são verdes porque a clorofila absorve principalmente luz azul e vermelha, refletindo o verde de volta para os nossos olhos. Astrobiólogos que estudam planetas em torno de estrelas mais frias e vermelhas já levantam a hipótese de que a vegetação nesses mundos tenderia a ser escura, quase preta, para conseguir capturar a maior fatia possível de uma luz que já chega com menos energia disponível, pois desperdiçar qualquer parcela dela seria um luxo que a vida ali não poderia bancar. Krypton, com sua vegetação descrita nos quadrinhos como frequentemente vermelha e densa, não está tão longe dessa lógica.
O céu, por sua vez, dificilmente seria azul como o nosso. Aqui na Terra, o azul vem do espalhamento de Rayleigh, o fenômeno pelo qual a atmosfera espalha luz de comprimento de onda curto, como o azul, muito mais do que luz de comprimento de onda longo. Esse espalhamento só produziria um céu azul se a estrela emitisse uma fatia considerável de luz exatamente no espectro do azul. Sob Rao, com pouquíssimo azul disponível, o céu kryptoniano provavelmente tenderia para tons de laranja, âmbar ou vermelho profundo mesmo em pleno meio-dia, e as sombras, em vez do cinza neutro que conhecemos, carregariam um tom avermelhado constante.
A Tecnologia também seria adaptada. Vale imaginar também o que essa escassez de energia solar significaria para a tecnologia de Krypton. Um painel solar converte luz em eletricidade com mais eficiência justamente nas faixas mais energéticas do espectro, justamente as que praticamente inexistem sob Rao. Usar a luz da estrela para gerar energia, não seria uma possibilidade.
E por que o sol amarelo da Terra muda o jogo
Agora troque Rao pelo nosso Sol. Quando um kryptoniano chega à Terra, duas coisas mudam ao mesmo tempo: a gravidade cai drasticamente e a fonte de energia solar sobe de patamar. Seu corpo, já adaptado a uma gravidade maior, de repente se vê em um ambiente “leve”. E as células, finalmente alimentadas por um sol amarelo rico em energia, começam a armazenar e liberar poder em níveis absurdos. A mesma célula kryptoniana, adaptada havia gerações a absorver uma luz de baixa energia, de repente passa a receber fótons muito mais energéticos, numa faixa do espectro, que inclui o ultravioleta, que ela nunca precisou processar em grande quantidade. Se essa célula realmente funciona como uma bateria solar, como propôs Byrne, o excedente de energia absorvida e não gasto imediatamente se acumula ao longo do tempo, célula por célula, ates se manifestar como o que os leitores reconhecem como os poderes do Superman.
É exatamente esse contraste que torna Superman o que ele é. Ele não é apenas um alienígena forte. Ele é um ser cuja biologia foi projetada (pela evolução ou pela ficção) para operar em um regime energético que só existe longe de casa. Qualquer estrela vermelha do Universo o mantém “normal”. O sol amarelo da Terra o eleva a um novo patamar. Rao mal alimentavaquelas células. O nosso Sol as sobrecarrega.
No fim, é isso que mais me atrai nesse tipo de personagem: o poder do Superman nunca esteve nele. Estava, o tempo todo, escrito na temperatura de duas estrelas diferentes.
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